Produzimos pequenos fakes todos os dias

Publicado em 03/12/2020 por Carolina Alves

Pollyana Ferrari é jornalista, autora de 9 livros, pós-doutora e pesquisadora em comunicação digital, além de professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Este ano, está lançando a segunda edição de “Como sair das bolhas”, obra na qual aborda o paradoxo do isolamento em uma sociedade extremamente conectada. “Ficamos apegados às nossas crenças e parece que entramos em uma seita: não ouvimos nada que confronta o que acreditamos e vivemos em bolhas. Para estourá-las, é fundamental ‘dar um nó no algoritmo’ e recorrer à diversidade”, diz a pesquisadora. Confira a entrevista.

Baseados em nossas preferências, os algoritmos escolhem o que aparece na nossa timeline. De que forma isso acaba criando uma ‘bolha’ informativa?

Ocorre que ficamos apegados às nossas crenças e parece até que entramos em uma seita: não ouvimos nada que confronta o que acreditamos. As pessoas vivem presas à “auto-verdade”, um círculo vicioso, uma bolha.

Consumimos sempre as mesmas coisas nas redes, ignorando o que é diferente. Por isso, é sempre bom dar um nó no algoritmo. Ouvir playlists fora do que estamos acostumados, andar por regiões diferentes, escutar o que os outros pensam, nos relacionar com pessoas que trazem olhares diferentes das coisas. Caso contrário, fortalecemos a polarização que vivemos hoje, em que só existe lado A ou lado B.

Você aborda em seu livro como relativizamos a verdade nos nossos próprios perfis, colocando, por exemplo, filtros de beleza nas fotos. Como é a relação entre esse comportamento e a circulação de fake news?

A desinformação caminha junto com essa anomalia da pós-verdade, pois o fake é sedutor. Agora está na moda emagrecer o rosto com filtros, deixar as bochechas rosadas. Estamos em 2020, discutindo a beleza real, do corpo real, tentando desconstruir todos aqueles conceitos das revistas de moda, do photoshop, mas nós mesmos alteramos nossa aparência nas redes sociais.

Maquiamos o rosto, as férias, a vida. Produzimos pequenos fakes todos os dias nas nossas redes e acabamos relativizando a verdade, achando um pouco mais aceitável aquilo que não tem tanto lastro com a verdade.

Mascarar vira até um vício, pois aquela foto modificada gera mais engajamento. Quando milhões de pessoas fazem isso, em termos de marketing, se torna um comportamento social – e um risco, pois crescem índices de depressão, de suicídio e outros males.

Você acha que a população em geral tem se preocupado mais com o poder dos algoritmos e o modus operandi das redes sociais?

As pessoas ficaram bastante chocadas com [o documentário] “O dilema das Redes”, ao perceberem como o ato de curtir e buscar sempre as mesmas coisas nos isola dentro de bolhas e nos deixa vulneráveis para a desinformação.

Eu acho que as plataformas precisam ser reguladas de alguma forma, a exemplo de mercados como cerveja e cigarro. Ninguém sabe de fato, mesmo com a vigência da LGPD [Lei Geral de Proteção de Dados], o que são feitos com os nosso dados. 

No livro você fala que vivemos um momento em que que fatos têm menos influência do que apelos emocionais e opiniões pessoais. Por que, na sua visão, a desinformação é tão mais atraente que a verdade?

Existe um componente da desinformação que cruza cognitivamente com as nossas crenças, com os nossos medos, cai como uma luva e a pessoa não quer nem checar. Quando houve o assassinato da Marielle [Franco], que rolou aquela fake news de que ela era amante do Marcinho VP. Se a pessoa é homofóbica, racista, ou não gosta da Marielle por diversos motivos, não vai nem checar. Ela fala “viu só, eu tinha certeza!” A pessoa passa por cima do assassinato, de toda a barbárie, porque aquela informação encaixou com os seus pré-conceitos.

A desinformação é muito capciosa. As pessoas que as produzem utilizam temas em alta no momento e questões que geram medo em uma parcela da população. São gatilhos que vão de encontro a um vazio que temos, é muito desleal. A fake news incorpora um mix de componentes controversos na nossa sociedade, como religião, sexualidade e posição política.

Grandes empresas de tecnologia lançaram medidas de combate à desinformação em suas plataformas, como investimento em startups e ações de combate a fake news. Como você enxerga o papel dessas empresas no atual cenário de desinformação?

Eu acho que as redes sociais não são as únicas culpadas. Nós, enquanto sociedade, também temos nossa parcela de culpa em relação a como utilizamos as redes. Depois das eleições do [Donald] Trump em 2016, aumentou-se a pressão social contra as fake news e as agências de fact checking cresceram. Mas é muito importante que as empresas de tecnologia também façam a sua parte.

Além disso, precisamos de mais transparência sobre o uso dos nossos dados. A regulamentação, porém, precisa ser um debate bastante amplo com a sociedade, com o Judiciário, para não virar perseguição, ainda mais em um país com o histórico do Brasil.

Outro ponto delicado é que, muitas vezes, a desinformação parte do próprio governo, a exemplo da defesa da cloroquina em redes sociais de autoridades, e até de brigas com a ciência.

Na sua percepção, a pandemia agravou de alguma forma a disseminação de fake news, pela necessidade de nos mantermos conectados para driblar a solidão do isolamento?

Houve um crescimento muito grande do compartilhamento de fake news, inclusive sobre o covid-19. As pessoas confinadas acabaram usando ainda mais as redes sociais e saíram compartilhando sem conferir.

Dá trabalho checar, de fato, e as pessoas tiveram ainda menos tempo livre no home office, com jornadas mais longas que o normal. Mas, se não tiver com tempo de checar, deixe a informação parada lá no grupo da família, não precisa compartilhar na hora que recebe.

Como você avalia a relação com a desinformação nas novas gerações, que já nasceram nas redes sociais?

Está rolando muita desinformação nas plataformas onde a nova geração está mais presente, como o Tik Tok. E isso gerou até uma ação na rede, com checagem de informação e de vídeos falsos.

Mas só com a educação nas escolas e midiática conseguiremos  combater o problema no seu núcleo, ensinando a compartilhar conteúdo apenas de fontes confiáveis, junto com os créditos, seja de texto ou foto.

Para os nativos digitais, tudo está nas redes, com acesso facilitado e gratuito. Então, discutir a questão da propriedade do conteúdo, de autorização de uso, é fundamental para a compreensão de quem é a origem daquela informação. Não é possível impedir os jovens de usar as redes, mas podemos conscientizá-los de como utilizar as plataformas devidamente. 

(Texto originalmente publicado no Norte Tecnologia em 03/12/2020, disponível no link https://nortetecnologia.net/entrevista-pollyana-ferrari-fake-news-redes-sociais/)

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